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16/06/2005 14:13
- O Piauí é aqui
Zuenir Ventura
É curioso ver a crise política a partir de outros ângulos que o do eixo Rio-SP-Brasília, ou seja, longe de nosso umbigo. Na outra semana eu me encontrava no Sul e, na atrasada, no Norte, ou Meio Norte, onde se situa o Piauí, o estado mais pobre da União. Não é que vista daqui a crise seja menor. Mesmo para quem viveu algumas das piores crises do século passado do suicídio de Getúlio Vargas à queda de Fernando Collor, da renúncia de Jânio Quadros à morte de Tancredo Neves, entre outras a de agora não é de se jogar fora. Ao contrário, é das mais graves, ainda que entre mortos e feridos, todos vão se salvar. Ou você acha que alguém vai parar na cadeia?
De qualquer maneira, embora de longe dê para identificar o que foi jogado no ventilador, pelo menos não dá para sentir o cheiro. Se eu fosse o Lula, fugia do seu inferno astral vindo ver o que está acontecendo no Piauí, governado por um colega de partido, também ex-líder sindical (ex-bancário). Às voltas com escândalos, com sua popularidade em queda (na última pesquisa Datafolha, 65% das pessoas disseram acreditar em corrupção no governo), ele ia ficar com inveja.
Apesar das dificuldades de um estado que reproduz quase todos os problemas do país, o governador Wellington Dias (um dos poucos do PT) está agradando, a julgar pelas pesquisas publicadas no fim de semana. Mais de 75% dos entrevistados aprovaram seu desempenho pessoal, enquanto 71% se declararam satisfeitos com a atual administração estadual. Um dos itens mais bem avaliados foi a educação, por causa do combate ao analfabetismo e da extensão da rede escolar. Hoje, todos os municípios piauienses possuem escolas de nível médio. O governo daqui prega olha que bom exemplo que o caminho da erradicação da pobreza passa necessariamente pela educação. Outro item que recebeu boa avaliação foi a saúde.
Como o Brasil não conhece o Brasil, costumo ter surpresas nessas viagens que venho fazendo ultimamente, nem sempre agradáveis. A pior delas é constatar que muitas das mazelas das metrópoles estão chegando, quando já não chegaram, às cidades menores, como a violência urbana e o tráfico de drogas. Para quem vai do Rio ou São Paulo, não é fácil notar, mas é comum ouvir: ah, isso aqui já foi tranqüilo, a violência já chegou (leio num jornal daqui que uma adolescente de 15 anos foi presa com três quilos de cocaína. Os traficantes já estão recrutando menores).
Mas há também boas novidades. Por exemplo, vim participar do 3º Salão do Livro do Piauí sabendo o que podia esperar de um evento organizado por quatro professores, sem dinheiro, sem patrocínio oficial, numa cidade com carências mais prementes do que a leitura. Pois o que vi aqui em dois dias foi realmente notável. Já não falo da freqüência em seis dias de 70 mil pessoas (cerca de 10% da população da cidade), a maioria de crianças e adolescentes.
O mais surpreendente foi assistir à noite à palestra do escritor Moacyr Scliar, num auditório de 800 lugares, completamente cheio. Ele falou uns 40 minutos e em seguida abriu a palestra para a participação do público, formado predominantemente por jovens. Alternando perguntas por escrito e ao microfone, a platéia levantou questões em relação à obra do autor, sobre a qual demonstraram conhecimento em detalhe. Falaram de personagens e comentaram situações com uma intimidade que o próprio autor não esperava. Mas também debateram temas como a escrita automática dos surrealistas e se o uso de drogas, os paraísos artificiais, estimularam ou não a criatividade em escritores como Baudelaire.
O alto nível das perguntas serve para desmontar estereótipos criados por nosso etnocentrismo, como o preconceito de que fora do eixo Rio-São Paulo não existe vida inteligente.
enviada por Mariana Arraes
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